quinta-feira, dezembro 08, 2016

O Filme “Capitão Fantástico” e a Fantástica Cara-de-pau de Hollywood




por Ricardo Bordin





“Ben é o pai de seis crianças pequenas, que decide fugir da civilização e criar os filhos nas florestas selvagens do Pacífico Norte. Ele passa os seus dias dando lições às crianças, ensinando-os a praticar esportes e a combater inimigos. Um dia, no entanto, Ben é forçado a deixar o local e retornar à vida na cidade. Começa o aprendizado do pai, que deve se acostumar à vida moderna.”



E quem acreditar em uma linha sequer desta sinopse ou caiu no conto do vigário, ou deve estar chorando a morte de Fidel neste momento. Difícil imaginar alternativa diante da peça publicitária vermelha. A cor do terno do herói do filme não me deixa mentir.

O real sumário desta película que mais parece uma fábula: um pai de seis filhos resolve tirá-los da civilização – a mais nova das meninas tem apenas oito anos de idade – e criá-los na floresta, submetendo-os constantemente à lavagem cerebral por meio de livros de cunho anticapitalista quase o dia inteiro. No tempo que sobra, ensina-os a caçar e sobreviver sem depender dos cruéis empresários do mundo que abandonou, até o dia em que a realidade bate a porta – como costuma dar-se com todos os “progressistas”, por sinal.

Fica até difícil decidir por onde começar a apontar os indícios de doutrinação ideológica da mais desavergonhada, mas vamos primeiro ao mais hilário dos aspectos observados: a trupe do papai Ben está isolada do materialismo e do consumismo ocidentais, pero no mucho: periodicamente, o rapaz desencantado com a incessante busca humana pelo “vil metal” vai até a cidade para… sacar dinheiro! Sim, é óbvio que ele não teria como produzir todos os bens de que necessita para sobreviver, e precisa, vez por outra, engajar-se em trocas voluntárias – com exceção dos episódios em que ele resolve ensinar seus filhos a “libertar a comida” do supermercado. Furtar, no caso, mas temperado com eufemismo e uma boa causa, tudo fica mais divertido; para que usar palavras duras, certo?

O porém dessa história é que ele e seus filhos não produzem valor algum em suas vidas medíocres – como um ou outro esquerdista por aí. A origem desta grana que banca a aventura fantasiosa da turma permanece nebulosa, mas o fato é que ele a possui (como resultado do trabalho de estágios anteriores de sua vida, decorridos em meio aos gananciosos urbanos; ou foi colhida em árvores), guardada em um banco, e com ela compra roupas, livros e põe gasolina no ônibus que dirige nestas incursões à selva monetária – o qual, a propósito, não é movido a óleo de canola nem é feito de material reciclável, vejam vocês.

Bastante diferente, aliás, de como procedeu Henry David Thoreau, quando resolveu viver por mais de dois anos em florestas americanas, provendo seu sustento com o trabalho de suas mãos e dentro das limitações impostas pelo ambiente. É que isso deve dar um trabalho danado, rapaz…

Não tive como não lembrar-me do patético evento que costuma ocorrer em Nevada/USA, mas iniciou em São Francisco/Califórnia (onde mais poderia ser?), denominado Burning Man. Trata-se de um festival onde “onde não se pode pagar por nada” durante dez dias festivos – virando o rosto, claro, para o fato de que, antes de por o pé na Black Rock City, é necessário desembolsar em torno de US$400. Brincar de comunidade utópica logo após pagar essa importância ajuda a entender os socialistas de Iphone, ao menos. A possibilidade de recarregar as baterias para suportar mais um ano de “racionalidade e limitações impostas pela hipocrisia da sociedade faz-de-conta do lado de fora” justifica rumar para o oeste americano, sem dúvida. Ô saudade dos longínquos 1960!

Mas porque, então, não esticar a folga e passar o ano inteiro livre do convívio com o “mundo careta e repressivo que sufoca a auto-expressão e embota a criatividade das pessoas mais espontâneas do planeta”, tal qual o uncle Ben faz? Seria porque os burners não tem dinheiro pra sacar ao seu bel prazer, e precisam trabalhar o resto do ano para pôr comida na mesa e comprar o ingresso do ano seguinte? É possível, creio.




Quando mencionei que livros são devorados no acampamento da família mais bicho-grilo do cinema atual, não tenha dúvida: todos seguem a linha editorial dos autores que sonham com o paraíso na terra. Não à toa, o filho mais velho se declara maoísta, apenas como exemplo bizarro. E menos por acaso ainda, esse adolescente, quando se depara com uma mulher atraente no decorrer da trama, paga um mico de padrões kingkonguianos, o que o leva a rezingar para o pai: “eu não sei nada da vida real”. Fique tranquilo, amigo: tens tudo para ser um grande intelectual no futuro. Solteiro, provavelmente.

As pobres crianças repetem slogans de tom marxista à exaustão, como o bordão Johnleniano “power to the people”, chamam refrigerante de “água envenenada” (ao melhor estilo Che Guevara), dentre outros mantras e gritos de guerra. Pior: o pai os ensinou a comemorar o dia do nascimento de Noam Chomsky, em vez do Natal – “para que celebrar uma lenda?”, justifica ele.

Honestamente, o roteiro é paupérrimo no quesito honestidade. Pura alucinação, onde a vida rupestre dos personagens é repleta de exercícios matinais, ócio criativo, refeições extraídas direto da natureza, e quase nada dá errado. E quando algo vai mal, a culpa é do mundo exterior, ou seria muito pior nele (ao melhor estilo Chávez e sua metralhadora apontada para os “imperialistas Yankees”). Ou, quem sabe, a comparação pretendida pela produção seja com povos indígenas comumente retratados como seres totalmente integrados às florestas – sem considerar que eles ateavam fogo em largas extensões de mata para caçar e plantar, e otras cositas más.

Toda essa incompreensão do mundo capitalista é simbolizada pela figura do sogro do “protagonista”, o qual, munido de toda sua insensibilidade, não compreende o que se passa na cabeça do pobre rapaz que quer apenas criar seus rebentos afastados da poluição mental provocada pela prosperidade do livre mercado, e ameaça, pois, até mesmo mandá-lo prender por criar seus netos como bichos – os quais precisam, inclusive, aprender a matar animais e costurar suas vestimentas, já que conceitos como divisão do trabalho e comércio passaram a quilômetros do mato onde vivem. Convenhamos, todavia, que caçar pombos e cães de rua para matar a fome são habilidades fundamentais em lugarejos agraciados com “el socialismo del siglo XXI”; confirma, camarada Maduro?

Não que o diretor não faça de tudo para convencer os espectadores de que, a partir de seu ponto de vista deturpado e delirante, the kids are alright, thanks. E, para isso, faz dos sobrinhos do Tarzan frustrado duas mulas estúpidas que só sabem jogar videogame, os quais, claro, quando confrontados intelectualmente com os filhos daquele, levam uma surra humilhante. Mas convenhamos que, aqui, a produção do filme tem um ponto: frequentar escolas (COM partido, e muito) e dominar competências e conhecimentos relevantes são conceitos cada vez mais apartados nos dias atuais. Difícil discordar neste caso.

E o preparo físico desses atletas mirins? Padrão Cuba de excelência no esporte – em todos os sentidos, inclusive nas tentativas desesperadas de fuga do regime ditatorial imposto de cima para baixo. Americanos obesos são chamados de hipopótamos, e um médico declara que os ratinhos de laboratório são “muito fortes para suas idades”, para orgulho de papai Ben. Acontecem um ou dois incidentes de percurso, sim, mas as “conquistas sociais” devem justificá-los, tal qual ocorre na ilha caribenha, imagino. Liberdade para comer o que quiser e até para ser um gordo sedentário são luxúrias hodiernas.

A sensação que fica após o último minuto de tortura cinematográfica certamente vai agradar aos frequentadores do festival de Sundance, enquanto esses comem tofu e choram abraçados a derrota de Hillary: Ben não é, nem de longe, uma má pessoa; trata-se apenas de uma idealista, que sonhou com um mundo igualitário e longe da opressão do capital. Nem tudo dá certo em seu louvável plano, mas a ganância de todos os demais humanos que acordam cedo para labutar é a grande responsável por seu fracasso. Pol Pot curtiu muito, lá do inferno comunista .



A “boa alma” do personagem principal, que não se digna sequer a respeitar rituais fúnebres e gosta de representar o “líder supremo” do partido em sua família, não pode, conforme a tosca narrativa, ser condenada pela aberração que seus filhos se tornam. Lembram aquele mais velho que não sabe o que fazer diante de uma bela mulher? Então: ele vai para Harvard! E como ele já está acostumado a safe spaces (viveu boa parte da vida em um, afinal), certamente tornar-se-á um vulto de destaque no meio acadêmico – ainda mais com uma história de vida dessas para relatar durante os fóruns sociais da vida ou oficinas realizadas durante “ocupações”.

Não vai ter golpe na selva, companheiros! Nem papel higiênico, mas isso faz parte de nosso processo de conquista da igualdade – para com os animais, no caso.

Fonte Instituto Liberal


terça-feira, dezembro 06, 2016

As dez leis fundamentais da economia





Sociedades que as respeitam e não tentam revogá-las enriquecem.
por Antony Mueller





1. Para consumir é necessário antes produzir.

2. O consumo é o objetivo final da produção.

3. Não há nada que seja realmente gratuito.

4. O valor das coisas é subjetivo.


6. Gastos são custos; o multiplicador da renda implica a multiplicação dos custos.

7. O dinheiro, por si só, não é riqueza. Dinheiro é um meio de troca; riqueza é abundância de bens e serviços e bem-estar. O governo criar mais dinheiro não significa criar mais riqueza.

8. O trabalho, por si só, não cria valor; para ter valor, um bem produzido tem de ser útil e demandado por consumidores que voluntariamente querem consumi-lo.

9. No capitalismo de livre concorrência, o lucro econômico é o bônus extra que uma empresa ganha por ter sabido alocar corretamente recursos escassos.

10. Todas as leis genuínas da economia são puramente lógicas e, como tais, não precisam ser verificadas e nem podem ser empiricamente falsificadas.



Sociedades que entenderem e respeitarem essas 10 leis econômicas — sem tentar revogá-las — irão prosperar.




sábado, dezembro 03, 2016

A defesa da pregação inconveniente, aborto eleições e outras coisas







por Fabio Blanco



Se o homossexualismo é pecado, é óbvio que ele pode ser prevenido e, inclusive, revertido. Não fosse assim, estaríamos diante de uma pecado infalível, o que, por definição, seria a antítese mesma de pecado. E por mais que o cristão acredite nisso, por força da doutrina que segue, sente que, a cada dia, expor essa convicção tem se tornado algo desagradável. Tratar o homossexualismo como pecado está colocando o cristão à beira de cometer um crime.

Isso ficou bem claro nas reações à palestra que seria promovida pela Igreja Batista Getsêmani que, com o título original de Como prevenir e reverter a homossexualidade, provocou a ira de diversas pessoas que tomaram conhecimento do evento. A página da igreja foi então infestada de indignados que não se fizeram de rogados em manifestar, com a brutalidade típica dos integrantes de movimentos ideológicos, sua revolta. Com isso, a igreja fora forçada a mudar o título da palestra e emitir uma nota explicativa, pela qual, mais do que justificar sua escolha, tenta apaziguar os ânimos. Após, então, acabar por cancelar o evento.

A questão é que, independente do quanto isso possa suscitar a ira dos revoltados, o fato é que a Igreja tem todo o direito de expressar sua opinião sobre esse assunto e proibi-la de fazer isso é um atentado não apenas contra uma instituição religiosa, mas contra o próprio conceito de democracia e liberdade que todos ousam dizer que defendem.

É inegável que para a doutrina cristã o homossexualismo é pecado. Isso está explicitamente ensinado em seus cânones. Sendo assim, para ela, o homossexualismo é algo passível de escolha do ser humano. Apenas aquilo que pode ser evitado pode ser pecado, portanto, praticar o homossexualismo, segundo a concepção da Igreja, é algo que está sob o controle de cada pessoa. Assim, se é passível de escolha é prevenível e se é prevenível nada impede que se ensine como prevenir.

Se a Igreja evitar de fazer isso, de ensinar algo que está claro em sua doutrina, apenas para agradar as expectativas politicamente corretas, estará negando a si mesma. E, desta maneira, será o seu fim como instituição religiosa, que se caracteriza, principalmente, por sua independência de consciência. Passaria a ser apenas um local de encontro social, completamente submissa aos ditames do Estado. Seria, portanto, sua destruição.

O que os revoltosos não percebem é que a proteção de liberdade de consciência e expressão das instituições religiosas é, antes de tudo, a proteção da liberdade de todos. Se a Igreja for impedida de pregar conforme seus próprios ensinamentos, nenhuma outra entidade ou indivíduo poderá ter garantida a mesma liberdade. Por isso, a preservação da livre expressão religiosa é a manutenção de ilhas de liberdade que impedem que o Estado tome conta de tudo e passe a ser o definidor final do que é justo, ético e moral.

Fica evidente, portanto, que a liberdade de todos passa necessariamente pela liberdade de expor os conteúdos de cada crença. Ainda que tais conteúdos sejam inconvenientes para alguns grupos e até irritem outros, suprimi-los é um passo largo para a tirania estatal.



Eu sei que quando a Igreja diz que o homossexualismo pode ser revertido ou prevenível isso afeta o âmago daqueles que acreditam que essa é uma condição inescapável de alguns indivíduos. É inclusive lícito que estes tentem provar que o ensinamento cristão está equivocado. Porém, o que não podem fazer, sob pena de sofrerem, eles mesmos, as consequências, é tentar calar a Igreja. Se fizerem isso, nada garante que eles mesmos não sejam proibidos de expressarem seus pensamentos logo em seguida.

E, do lado da Igreja, é preciso, desde já, que ela comece a ser mais explícita sobre o que realmente acredita. É necessário perder o medo de expor o que crê, de fato. Deve acabar com a hipocrisia de tentar mostrar alguma tolerância em relação a uma atitude que ela considera abertamente pecaminosa. Como no caso da Igreja Getsêmani que, em sua nota de esclarecimento, afirma que a veiculação equivocada da informação não representa a opinião da Igreja. Dizendo isso, estaria ela negando que acredita que o homossexualismo pode ser prevenido e até revertido? Bom, sinto informá-los que esse é exatamente o ensinamento cristão, corolário óbvio da convicção de que o homossexualismo é pecado.

Claro que isto não significa que se deva pregar o ódio contra os homossexuais. Isto seria, inclusive, um erro, pois o cristianismo jamais ensinou assim. Mas que a Igreja tem o homossexualismo como um pecado sério e deve falar essas coisas abertamente, sobre isto não há a menor dúvida.

Os ataques contra os religiosos, como no caso contra os organizadores dessa palestra, são até esperados. Aliás, a própria Igreja deve continuar defendendo o direito das pessoas expressarem sua indignação. No entanto, não se pode achar justo que ela precise cancelar ou mudar o nome do evento, com medo de alguma retaliação judicial. Quando as leis humanas passarem a definir o que é lícito e o que é ilícito pregar dentro das Igrejas será o fim da vida como a conhecemos e podemos dar definitivamente as boas-vindas ao admirável mundo novo, onde reina a opressão e o policiamento.

Razões para ser absolutamente contra o aborto
Permitir o aborto de qualquer tipo é permitir, em pouco tempo, todo tipo de aborto. Sabendo disso, há uma enormidade de pessoas que, por amor à vida, lutam para que essa prática não seja permitida de maneira nenhuma. Ainda assim, estes, por mais paradoxal que pareça, são logo tachados, pelos defensores do assassinatos dos bebês em gestação, de insensíveis e, apenas para não perder o costume, fascistas. Por isso, nessa matéria, não é possível qualquer tipo de concessão.

Não importa a afetação de preocupação que esse tipo de gente demonstra, como se fossem as pessoas mais misericordiosas deste mundo. Antes de ser enganado por suas carinhas de anjos, é bom captar o espírito assassino que os acomete.

O problema é que aceitar o aborto por qualquer motivo é escancarar as portas de possibilidades para que infinitos outros motivos sejam considerados também justificadores de tal prática. Isso porque quaisquer motivos que sejam apresentados jamais podem ser totalmente objetivos e é essa margem de subjetividade que permitirá que, cada vez mais, sejam solicitados, pelas razões mais diversas, autorizações para abortar.

O fato é que nenhuma pessoa é capaz de definir o que é uma vida inferior, inviável e de sofrimento. Quem pretender fazer isso está arrogando para si poderes evidentemente divinos. E, apenas para argumentar, ainda que esses fatos fossem razões para abortar, e considerando que o são apenas em determinado graus, ninguém seria capaz de afirmar qual o grau exato deveria ser considerado para permitir o aborto.

Sendo assim, não se deve ceder nem um pouco para o abortistas. Um mínimo que se lhes permita agora será o muito que exigirão amanhã. Até porque o abortismo, antes de tudo, é uma ideologia e já estamos cansados de saber que os movimentos ideológicos nunca estão satisfeitos em suas demandas. Pelo contrário, os militantes são bastante pacientes para conquistá-as progressivamente e de uma forma tão sutil que poucos conseguem captar a estratégia existente por trás.

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As nomeações ao STF de Barroso, Fux, Toffoli e Fachin representam a maior excrescência que o universo jurídico brasileiro poderia engendrar. Além de não representarem, nem de longe, o que há de melhor entre os juristas do país, não passam de paus mandados das determinações de seus nomeadores, os quais, por seu lado, rezam na cartilha globalista/comunista. E para piorar tudo, neles reside, paradoxalmente, o completo desprezo pelas leis. O que importa para eles é aproveitar do poder para colocar em prática seus delírios ideológicos.

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Fica cada vez mais fácil entender como um homem como Michel Temer, aparentemente distinto e com um nível intelectual superior, pôde estar junto à máfia petista por tanto tempo. Os últimos fatos estão trazendo à tona uma rede de articulações, que culminam agora na tentativa de deter as investigações que começam a chegar nos caciques de seu partido. Se há uma diferença de forma, no fundo vê-se que tratam-se do mesmo tipo de políticos. O Brasil permanece à mercê da pior forma de homens públicos, porém agora de barba feita e fala mansa.

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Segundo Aécio Neves, Fidel Castro foi um homem incrível, cheio das melhores intenções, que apenas errou no método. E pensar que eu torci pela vitória dessa besta na eleição contra a anta.


quinta-feira, dezembro 01, 2016

Qual a posição dos liberais em relação ao aborto?










Por João Luiz Mauad





Uma das maiores agendas feministas é a luta pela descriminalização do aborto. Ano passado a cronista do Globo, Flávia Oliveira, escreveu um artigo intitulado “É preciso falar sobre o aborto” para aquele jornal onde não apenas defende a sua opinião a favor do aborto, como também ataca as mulheres que mantêm opiniões contrárias.

Flávia começa defendendo a discussão sobre o tema, alegando que esta é uma “agenda interrompida, em que valores morais importam mais que saúde pública”. Flávia não se detém a explicar quê valores morais exatamente são esses que ela colocaria como inferiores à questão da saúde pública, mas nota-se em seus argumentos seguintes um viés claramente consequencialista, muito em voga ultimamente nesse debate.

Depois de citar casos específicos, Flávia evoca alguns dados. Ao criticar as mulheres que exibem orgulhosamente suas barrigas nas redes sociais, numa reação à hipótese de liberação do aborto, ela diz: “São mulheres que não refletem sobre um problema de saúde pública que envolve de 600 mil a 850 mil brasileiras por ano, segundo reportagem do GLOBO de setembro de 2014. O aborto é a quinta causa de mortalidade materna no país. Causa mutilações e esterilidade.”

Ora, O argumento de que um crime deva deixar de sê-lo pelo fato de ser praticado em grandes quantidades e de forma escamoteada é absurdo. Equivale a dizer que, se um crime é praticado rotineiramente, com risco para o criminoso, ele deve simplesmente deixar de ser considerado crime. Confesso que não entendo o alcance do raciocínio. Se a norma legal vem sendo descumprida e causando prejuízo aos criminosos, deveríamos simplesmente acabar com ela? Nesse caso, convenhamos, sobrariam no Brasil muito poucas leis.

Trata-se de argumento legal, moral e filosoficamente inconsistente. É um contrassenso pretender legalizar uma prática com base nos índices de incidência ou no risco para os respectivos praticantes. Fosse isto razoável, deveríamos então pedir a descriminação do roubo ou do homicídio, crimes que também envolvem sérios riscos para os agentes e cuja ocorrência em nosso país é superior a do aborto.

Flávia traz ainda um outro argumento ao debate. Diz ela: “O debate do aborto extrapola o contra ou a favor. É mais complexo, porque envolve a liberdade de decidir sobre os próprios corpo e futuro. Deveria ser direito da mulher fazer isso, sem pôr a saúde em risco nem alimentar redes criminosas de contrabando de remédios e clínicas clandestinas.”

Esse é o mesmo argumento normalmente utilizado pelos liberais propensos à liberação do aborto. Tal raciocínio contrapõe, a meu ver equivocadamente, o direito à vida do feto à soberania da mulher sobre o próprio corpo, vale dizer, sua liberdade e propriedade sobre ele. Explico por que acho equivocado:

Pela ótica liberal, como bem demonstrou Bastiat em seu opúsculo “A Lei”, a existência do Estado está vinculada à necessidade de organização de uma força comum, mais poderosa que qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos, encarregada da defesa dos direitos individuais à vida, à liberdade e à propriedade. Portanto, o direito coletivo tem o seu princípio, a sua razão e a sua legitimidade no direito individual. Por outro lado, só podemos delegar aqueles direitos de que efetivamente dispomos. Assim como a força de um indivíduo não pode legitimamente atentar contra a vida alheia, tampouco a força coletiva pode ser aplicada legitimamente para destruir a vida de uma pessoa.

O mesmo raciocínio é válido para a defesa desses direitos. A lei, ao promover a substituição das forças individuais pela força comum, deve garantir que esta atue estritamente nos limites em que aquelas teriam o direito de fazê-lo, ou seja, para garantir ao indivíduo a sua própria vida, liberdade e propriedade. Ao Estado não deveria ser permitida nenhuma ação – ou reação – que não estivesse autorizada a cada cidadão.

Alguns liberais alegam que, no caso da gravidez indesejada, haveria um conflito de direitos. De um lado, estaria o direito á vida do nascituro (uma vida ainda não humana, para alguns) e, de outro, o direito de propriedade da mulher sobre o próprio corpo. Tal conflito pode até ser admitido no caso de gravidez derivada de estupro, mas nunca de gravidez oriunda de ação voluntária e consentida da mulher.

Qualquer manual sobre liberalismo, por mais conciso e superficial que seja, dirá que o exercício da liberdade pressupõe a responsabilidade individual irrestrita pelas conseqüências dos próprios atos. Isto quer dizer que toda e qualquer ação deve ter em conta os possíveis desdobramentos sobre os direitos – vida, liberdade e propriedade – dos demais.





Meu direito de propriedade permite que eu escolha quem pode ou não entrar em minha residência ou qualquer outra propriedade de que eu seja titular. No entanto, meu direito acaba onde começa o do outro e, portanto, não posso atentar contra a vida daqueles que lá estiverem, desde que convidados ou autorizados, a menos que eles tenham, antes, atentado contra a minha própria vida (legítima defesa).

Circunstâncias extremas, inusitadas ou indesejáveis não podem ser descartadas. Tome-se a seguinte situação: Pedro convida Paulo para uma pescaria. Em alto mar, a milhas de distância da costa, os dois brigam e a presença de Paulo torna-se inconveniente para Pedro. Seria correto se, em nome do direito de propriedade de Pedro sobre o barco, este forçasse Paulo a saltar?

Agora imagine que, durante uma festa na sua casa, alguém é acometido de um mal súbito. De acordo com os médicos, sua remoção para o hospital é desaconselhada, sob risco de morte. Segundo os especialistas, esta pessoa deverá ficar em repouso absoluto durante algumas semanas, até que esteja em condições de ser transferido. Por mais incômoda que a presença de um estranho em sua casa possa ser, principalmente em razão dos transtornos que causará na sua vida, seria válido, em nome do direito de propriedade, que você se recusasse a mantê-lo ali?

Assim como nos exemplos acima, um embrião humano que se instala no corpo de uma mulher, exceto em casos extraordinários de estupro, é produto de uma ação consciente, cujas conseqüências são bastante previsíveis. O ato sexual é uma escolha quase sempre voluntária e livre. Portanto, a responsabilidade individual a ela inerente não pode ser recusada, isentada ou transferida.

Repetindo o que já foi dito acima, a liberdade tem como contrapartida a responsabilidade irrestrita do agente sobre seus atos, e desta ele não pode fugir, muito menos quando estão envolvidos direitos de outros seres humanos, ainda que não nascidos.

É evidente que, se houvesse algum meio de transferir o feto para outra barriga ou mesmo para uma incubadora artificial, sem prejuízo para a vida ou a saúde do feto, essa seria uma opção totalmente legítima (assim como seria a entrega do recém nascido para adoção), já que conciliaria a propriedade da mulher sobre o corpo com o direito à vida do nascituro. Mas, pelo menos até onde sei, os avanços médicos e tecnológicos ainda não permitem tal coisa, de modo que a vida do feto é totalmente dependente do ventre onde foi gerado.

Um terceiro argumento pró-aborto é o de que um embrião só passa de fato à condição de ser humano após um determinado prazo de maturação. Não se discute propriamente a existência da vida, mas da vida humana. Aqueles que se prendem a tal argumento alegam que o “aglomerado de células embrionárias” seria apenas algo como um ser humano em potencial, que existe como possibilidade, mas ainda não é realidade e, nesta condição, ainda não teria direitos, estando fora da proteção (abrigo) legal do Estado.

Trata-se de debate antigo, embora quem já tenha tido a oportunidade de assistir a uma ultrassonografia de alta definição, realizada em gestantes com apenas oito semanas de gravidez, possa atestar que ali já estão presentes no feto inúmeras características de um ser humano – cabeça, tronco, membros (inclusive dedos), órgãos genitais, etc.

Por outro lado, será que, diante de uma dúvida existencial tão fundamental como essa, a ética e a prudência não recomendariam que se poupasse a vida? Afinal, existe a possibilidade real de que o aborto provocado seja equivalente a um homicídio, um atentado àquele que é considerado o maior dos valores humanos – a vida.

Além das questões acima, alguns propõem ainda um último argumento que, embora fraco, costuma também aparecer no debate. Diz-se que, no princípio da gestação, o feto ainda não tem capacidade de sentir dor e, portanto, o aborto, além dos outros aspectos discutidos acima, seria indolor. Ora, há algumas doenças, que acometem adultos e crianças, que os impedem de sentir dor. Apesar delas, nunca se cogitou liberar o assassinato dessas pessoas, simplesmente porque a lei deve proteger a vida das pessoas e não um suposto direito de não sentir dor.

Ademais, quando se trata do direito de herança, por exemplo, não se discute o nível de evolução do embrião no instante da morte do pai. Ora, se aceitarmos a possibilidade de sacrifício do feto antes de determinado estágio, sob o argumento de que a vida humana ainda não está completamente formada, não seria também o caso de se contestar o direito de herança em caso de morte paterna dentro deste mesmo estágio? Se a lei protege as propriedades materiais do embrião, por que não deve proteger também seu mais valioso bem, sem o qual os outros não têm qualquer valor? Será que a propriedade material é um valor superior à vida?

Por tudo isso, até que me provem que um feto não é um ser humano, cuja única diferença para os demais seres humanos adultos é não dispor, a exemplo das crianças pequenas, de meios próprios para seu desenvolvimento e legítima defesa, eu continuarei defendendo a criminalização do aborto, como defendo a criminalização do homicídio, do latrocínio, da escravidão, etc.

Até porque, qual é o único fundamento para a existência do Estado, numa sociedade liberal, senão a defesa da vida, da liberdade e da propriedade dos indivíduos, principalmente dos mais fracos?



João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

quarta-feira, novembro 30, 2016

O enigma da corrupção


por Roberto Rachewsky


Privilégios são concessões oferecidas pelo governo para favorecer determinados indivíduos em detrimento dos direitos dos demais que ficariam impedidos de atuar numa determinada atividade ou num determinado mercado.

Direitos são princípios morais que têm como finalidade permitir que indivíduos possam agir livremente para garantir sua vida e sua propriedade, tornando possível almejar a felicidade através da realização dos propósitos que cada um escolheu para si.

Liberais consideram o direito à vida e seus derivados, o direito à liberdade, à propriedade e à busca da felicidade, direitos inalienáveis, que ninguém pode tirar.

Obviamente, nenhum direito pode ser exercido de maneira a violar os mesmos direitos dos demais.

É por isso que se defende que, em um contexto social, todos os indivíduos devem ser iguais perante a lei, gozando dos mesmos direitos, sem que seja concedido a ninguém qualquer privilégio.

O enigma da corrupção desafia-nos a diferenciar se o agente corruptor está agindo para obter um privilégio ou garantir um direito.

Há sim uma diferença substancial entre a natureza e o propósito da ação daqueles que agem para obter privilégios através da corrupção e dos que querem garantir o exercício de um direito inalienável. Agir para garantir privilégios é imoral. Agir para exercer um direito é moralmente legítimo.

O que é comum em ambos os casos é o poder intervencionista do governo que pode tanto conceder privilégios para uns, como pode também violar os direitos de outros.

Num livre-mercado, onde não seria necessário pedir-se permissão para o governo para se exercer um direito, o governo teria apenas o poder de reagir contra aqueles que violam os direitos alheios.

Quando o governo deixa de reagir contra os violentos, por inépcia ou por corrupção, está concedendo privilégios para aqueles que se utilizam da violência para prevalecer.

No livre-mercado, o governo deve atuar exclusivamente como árbitro, com o intuito de reagir à violência .

Num mercado onde o governo pratica a violência ao intervir, negando direitos e concedendo privilégios, é comum que se forme uma névoa que nos impede de determinar, com certeza, quem age moralmente e quem não.

Esse é o enigma da corrupção, que propicia aos criminosos violentos, de dentro e de fora do governo, serem confundidos com suas vítimas inocentes que têm seus direitos violados por quem quer viver de ganhos imerecidos amealhados através da corrupção.

Publicado originalmente em: “Zero hora”.


Fonte: institutoliberal.org.br


terça-feira, novembro 29, 2016

Governo Cubano confessa: Socialismo é pobreza









Itens que para nós são triviais, para os cubanos são artigos de luxo.
por Juan Ramón Rallo





Que Cuba se tornou um país paupérrimo após 57 anos de socialismo é algo que qualquer pessoa pode intuir ao simplesmente analisar os fluxos migratórios: durante os últimos 50 anos, mais de um milhão de pessoas (cerca de 10% da população da ilha) se lançaram desesperadamente ao mar, utilizando qualquer coisa que flutue, correndo o risco de ser devoradas por tubarões, apenas para escapar deste macro-presídio político e econômico.



Isso, e apenas isso, já bastaria para se ter uma noção das condições de vida na ilha-presídio.



No entanto, certamente esses exilados não comovem os defensores do regime, os quais sempre rápidos em rotulá-los como "ratos traidores", "burgueses", "elite privilegiada" e "inimigos do povo", seguindo ordens de seu admirado gerontocrata multimilionário.

Sendo assim, convém analisar as reais condições de vida (após quase 60 anos de revolução) em Cuba utilizando os números divulgados pelo próprio regime. Isto é, analisemos como se vive em Cuba segundo as próprias estatísticas da ditadura castrista.

De acordo com o Anuário Estadístico de Cuba 2014, o salário médio mensal no país, que era 455 pesos cubanos em 2011, subiu para 584 pesos cubanos em 2014. 

Porém, qual o valor de um peso cubano? Para os turistas, e exclusivamente para os turistas, um peso cubano conversível vale um dólar. Isso significa que o turista que chega com um dólar é obrigado a trocá-lo por um peso cubano. Mas, para os habitantes da ilha, que não têm acesso a esse mercado controlado pelo governo, o câmbio é outro: atualmente, 26,5 pesos cubanos equivalem a um dólar.

Ou seja, o salário médio em Cuba equivale a 22 dólares mensais — ou R$ 75 mensais; enquanto isso, no Brasil, o salário médio nominal está em R$ 2.231.

Os salários médios mais baixos estão na indústria hoteleira (377 pesos cubanos, ou R$ 49) e os mais elevados estão na indústria açucareira (963 pesos cubanos, ou R$ 124). Os salários do setor educacional são inferiores à média (527 pesos cubanos, ou R$ 68) e os do setor de saúdes, superiores (712 pesos cubanos, ou R$ 92).

Logo, quem trabalha na indústria hoteleira recebe US$ 14,20 mensais e quem trabalha no setor educativo, menos de US$ 20 mensais. 

E vale ressaltar que estes são os salários médios de cada setor: ou seja, há muitos cubanos recebendo valores consideravelmente menores do que esses.

Isoladamente — dirão os defensores do regime — tais dados talvez não sejam demasiadamente informativos. Talvez — dirão eles — os preços em Cuba sejam tão baixos, que um cubano médio pode viver estupendamente bem com pouco mais de 20 dólares por mês.

No entanto, é óbvio que isso não procede. E, por sorte, não é nem necessário especularmos sobre como são os preços dos bens na ilha; o próprio governo castrista já faz esse serviço para nós. Dado que a imensa maioria dos preços é completamente controlada pelo governo, podemos saber em primeira mão quanto custam determinados produtos básicos recorrendo às resoluções do Ministerio de Finanzas y Precios, que é o órgão que estipula os preços dos bens de consumo em Cuba.

Sendo assim, de acordo com a resolução 95/2014, um pedaço de pão de 130 gramas custa 3,25 pesos cubanos. Já uma dúzia de ovos custa, segundo a resolução 61/2011, 13,2 pesos cubanos. Um quilograma de leite em pó, segundo a resolução 165/2014, custa 175 pesos. Uma lata de extrato de 440g de tomate custa 8,1 pesos (resolução 38/2013). Um quilo de peito de frango custa 119,25 pesos. E um litro de iogurte natural, 29,15 pesos (resolução 214/2012).

Ou seja, o salário médio da população cubana — atenção, estamos falando do salário médio de toda a população (que no Brasil é de R$ 2.231) e não apenas de um salário mínimo — permite que ela adquira, mensalmente, 20 pedaços de pão, três dúzias de ovos, um quilograma de leite em pó, dez latas de extrato de tomate, um quilo de frango e um litro de iogurte natural.

Prosperidade em estado puro.

No entanto, é claro que nem só de alimentos básicos vive o homem. Sendo assim, convém conhecer os preços de outros bens que, no Ocidente, já são considerados essenciais: uma caixa de fósforos custa 1 peso (resolução 51/2013); uma mensagem de texto de celular (o SMS) chega a 2,3 pesos, e uma hora de internet custa 53 pesos (preços oficiais da empresa estatal ETECSA cotados em "peso cubano conversível", o qual vale um dólar).

Já uma saboneteira custa 75 pesos (resolução 80/2011). Um creme dental, 4 pesos (resolução 78/2014). Um tambor de detergente de 2,5 quilogramas, 119 pesos. Um aparelho de rádio, 321 pesos. 

E uma televisão de 29 polegadas, 9.275 pesos (resolução 214/2012).

Vale enfatizar: uma televisão equivale a nada menos que 16 meses de trabalho.

Em suma, as condições de vida em Cuba são totalmente miseráveis. E não, não são miseráveis por causa do embargo americano, mas sim porque o socialismo gera pobreza. O embargo nunca impediu Cuba de transacionar com nenhuma empresa de outro país. Com efeito, as importações cubanas chegaram, em 2013, 6,72 bilhões de dólares (8,7% de seu PIB). 

Se Cuba não importa mais é simplesmente porque não exporta mais (para importar é necessário ou exportar ou atrair investimentos estrangeiros). E não exporta mais porque sua capacidade produtiva sob o socialismo é totalmente deficiente e porque seu governo não é receptível ao capital privado estrangeiro. Com exceções, as mercadorias produzidas em Cuba são incapazes de concorrer em qualidade e preço nos mercados ocidentais.

Cuba é pobre porque é socialista. E socialismo é pobreza.

Fonte: Mises.org.br


domingo, novembro 27, 2016

Morre o ditador Fidel Castro, o maior capitalista de Cuba







por Roberto Barricelli(*)

Um canalha que sempre viveu cercado de outros.




Enquanto Cuba empobrece às claras, o ditador Fidel Castro enriqueceu por negócios “obscuros”. Essa é a realidade da Ilha Prisão.

Como todo comunista que se preze, Fidel Castro adorava o comunismo, desde que fosse para o outros, pois para si só o melhor que o capitalismo pode proporcionar. Enquanto sempre pregou o comunismo para o povo, levando milhões à miséria, Fidel acumulou capital e viveu como um “burguês”. Mas no caso do ditador não bastava ser dono dos meios de produção, não, precisava ser dono da Ilha toda, ser o manda chuva.

Enquanto a pobreza é generalizada para a população, os produtos e serviços são ruins e caros, como os sucateados carros dos anos 50, Fidel andava de Mercedes-Benz e nas poucas aparições após “deixar o poder” sempre vestia Puma, Adidas ou até a “imperialista” Nike.



O que acabou em Cuba foi a possibilidade da existência de uma classe média, pois a elite apenas mudou dos empresários para os governantes. Uma elite branca, que governa a Ilha Cadeia com pulso firme. Foco na “elite branca” para não deixar cair no esquecimento o fato de que Ernesto Che Guevara, um dos (sic) heróis da revolução e maiores assassinos da história, era racista. Sim, ele inclusive disse que “o negro insolente e sonhador gasta seu dinheirinho em qualquer frivolidade ou diversão, ao passo que o europeu tem uma tradição de trabalho e economia”.

Mas voltemos ao Fidel Castro.

Enquanto o salário do médico cubano no máximo chega a US$41 na Ilha, nesses mais de 54 anos de “revolução” o capitalista Fidel Castro acumulou uma fortuna estimada em US$550 milhões, segundo a revista Forbes, publicação especializada.

Essa fortuna se deveu a negócios “controlados pelo Estado”, mas claro que “o Estado” era e é Fidel Castro. Entre eles o Palácio de Convenções, próximo a Havana, o conglomerado Cimex (varejista) e a empresa Medicuba, que comercializa vacinas e produtos farmacêuticos produzidos em Cuba.

Fidel acumula capital, enquanto o cubano comum acumula dívidas no mercado negro, dificuldades e pobreza.

Parte da fortuna advém também da produtora de rum Havana Club, que foi vendida por US$50 milhões à francesa Pernod Ricard. Esse dinheiro foi parar no bolso de Fidel Castro, apesar da empresa se “estatal”. A verdade é que todas as empresas “estatais” cubanas são mais privadas que qualquer outra e estão sob o controle dos Castro.

O que realmente é estatal em cuba? Os serviços públicos ruins e o cidadão, sim, este também foi estatizado e é tratado com grande desprezo. Atualmente o país ocupa a 59ª posição no Ranking Mundial do índice de Desenvolvimento Humano e segundo a OMS através do World Health Statistics 2013 caiu nas estatísticas de saúde para além da 40ª posição.

Mas Fidel continuava bem e consumindo os produtos importados, bons e mais baratos. Dizia ao mundo que Cuba tem a cura do câncer e o único ditador que se tratou lá dessa doença, morreu.

Mas o que importava para Fidel era continuar sendo sustentado pelos “amigos” bolivarianos, socialistas, comunistas e petistas com empréstimos polpudos feitos com o dinheiro do contribuinte desses países (como Brasil e Venezuela) e que provavelmente não voltarão. No caso da Venezuela, através da balança comercial, onde esta vendia petróleo mais barato em troca de médicos caros e níquel inflacionado.

No fim, Fidel vestia suas roupas importadas, sentava em uma poltrona confortável em sua mansão, tomava seu rum francês produzido em Cuba, ou um uísque importado, fumava seu charuto dominicano (que está melhor que o cubano) e relaxava, contando os dólares que engordam seu polpudo patrimônio.



(*)Roberto Barricelli é autor de blogs, jornalista, poeta e escritor. Paulistano, assumidamente Liberal, é voluntário na resistência às doutrinas coletivistas e autoritárias.

Nota: Artigo editado por Instituto Liberal, publicado originalmente como “Fidel – O grande capitalista” em 11 de dez de 2013.


sexta-feira, novembro 25, 2016

Eleições, hackers, segurança e legitimidade






por Bruce Schneier
Precisamos de procedimentos para avaliar alegações de urnas eletrônicas hackeadas.
Precisamos de um claro e robusto processo de auditoria de eleição.


Acabou. As eleições ocorreram normalmente. No momento em que escrevo, não há alegações significativas de fraude nem evidências críveis de que alguém tenha adulterado os registros de votação ou as urnas eletrônicas. (N. do E.: Na verdade, a pior fraude veio de Obama, conclamando os ilegais a votarem.) E, mais importante, os resultados não foram questionados por ninguém.

Apesar de podermos dar um suspiro coletivo de alívio, não podemos ignorar o problema e ficar esperando a próxima eleição. Os riscos permanecem.

Como os especialistas em segurança têm afirmado há anos, os nossos novos sistemas de votação computadorizados são vulneráveis a ataques tanto por hackers individuais como por hackers patrocionados por governos. É apenas uma questão de tempo antes que ocorra algum ataque.

Urnas eletrônicas podem ser invadidas, e as máquinas que não possuírem uma cédula de votação em papel que possa comprovar a escolha de cada eleitor podem ser invadidas de forma indetectável. Os registros de votação também são vulneráveis; todos eles são bancos de dados computadorizados cujas entradas podem ser apagadas ou alteradas para espalhar o caos no dia da eleição.

O sistema amplamente usado nos estados para a coleta e tabulação dos resultados de votação individual também é vulnerável. Apesar da diferença entre as vulnerabilidades teóricas talvez demonstráveis e um ataque real no dia da eleição ser considerável, nós tivemos sorte este ano. Não apenas a eleição presidencial está sob risco mas também as eleições estaduais e locais.

Para ser bem claro, não se trata de fraude por parte dos eleitores. Foi repetidamente demonstrado que o risco de pessoas inelegíveis votarem ou de pessoas votarem duas vezes é praticamente nulo e as “soluções” para esse problema são certamente medidas de supressão de eleitores. A fraude do sistema eleitoral, entretanto, é muito mais factível e muito mais inquietante.

Eis a minha preocupação. Um dia após uma eleição, alguém pode afirmar que o resultado foi obra de um hacker. Talvez um dos candidatos reclame de uma grande discrepância entre as pesquisas mais recentes e os resultados reais. Talvez uma pessoa anônima anuncie que hackeou uma marca particular de urna eletrônica, descrevendo em detalhes como o fez. Ou talvez seja uma falha de sistema durante o dia da eleição: urnas eletrônicas gravando significativamente menos votos do que o número de eleitores, ou zero votos para um candidato ou para outro. (Essas não são ocorrências teóricas; ambas já aconteceram nos Estados Unidos, apesar de terem ocorrido por erro, não por maldade.)

Não temos procedimentos sobre como proceder caso ocorra alguma dessas coisas. Não há manuais, não há uma equipe de especialistas, não há uma agência regulatória para nos orientar em meio a uma crise. Como nós definiremos se alguem hackeou o voto? Podemos recuperar os votos verdadeiros ou eles foram perdidos para sempre? O que faremos, então?

Em primeiro lugar, precisamos fazer mais para garantir a segurança do nosso sistema eleitoral. Devemos declarar que os nossos sistemas de votação são infraestrutura nacional crítica. Isso é em grande parte simbólico mas demonstra um compromisso para dar segurança às eleições e para tornar fundos e outros recursos disponíveis para os estados.

Precisamos definir padrões de segurança nacional para as urnas eletrônicas e financiar os estados para que possam obter urnas que atendam a esses padrões. Especialistas em segurança eleitoral podem lidar com detalhes técnicos mas as urnas precisam incluir uma cédula de votação em papel que permita um registro verificável pelos eleitores. A forma mais simples e mais confiável de fazer isso já é praticada em 37 estados: cédulas de papel com leitura ótica, assinaladas pelos eleitores, contadas pelo computador mas recontáveis à mão. E nós precisamos de um sistema de auditorias de segurança pré-eleição e pós-eleição para aumentar a confiabilidade do sistema.

Em segundo lugar, a fraude do sistema eleitoral, seja por uma potência estrangeira ou por um ator doméstico, é inevitável, e por isso precisamos de procedimentos detalhados a serem seguidos – procedimentos técnicos para saber o que aconteceu e procedimentos legais para saber o que fazer – que nos dêem, de forma eficiente, uma decisão eleitoral clara e imparcial. Deve haver um corpo independente de especialistas em segurança computacional para esclarecer o que aconteceu e um quadro independente de funcionários do sistema eleitoral, seja na Federal Election Commission ou em qualquer outro órgão, capacitado a determinar e implantar uma resposta apropriada.

Na ausência de tais medidas imparciais, as pessoas lutarão para defender o seu candidato e o seu partido. O que ocorreu na Flórida no ano de 2000 é um exemplo perfeito. O que poderia ter sido uma questão puramente técnica de determinar a intenção de cada eleitor tornou-se uma batalha por quem ganharia a presidência. Os debates sobre cartões anulados e cédulas danificadas, e sobre como extensa a recontagem devia ser feita, foram contestados por pessoas lutando por um resultado particular. Da mesma forma, após uma eleição hackeada, os interesses partidários colocarão uma pressão tremenda nos funcionários para que tomem decisões que se sobreponham à imparcialidade e à exatidão.

É por isso que precisamos construir juntos políticas para lidar com futuras fraudes eleitorais. Precisamos de procedimentos para avaliar alegações de urnas eletrônicas hackeadas. Precisamos de um claro e robusto processo de auditoria de eleição. E precisamos que tudo isso esteja pronto antes que uma eleição seja hackeada e que linhas de batalha sejam traçadas.

Em resposta à Flórida, o Help America Vote Act de 2002 exigiu que cada estado publicasse as suas próprias regras sobre o que constitui uma eleição. Alguns estados – Indiana, em particular – definiram uma “sala de situação” de ciber-especialistas públicos e privados prontos para ajudar se algo acontecesse. Apesar do Department of Homeland Security estar ajudando alguns estados com segurança eleitoral e o FBI e o Justice Departament terem feito algumas preparações esse ano, a abordagem tem sido fragmentada demais.

As eleições têm dois objetivos. Primeiro, e mais óbvio, servem para escolhermos um vencedor. Mas segundo, e igualmente importante, servem para convencer o perdedor – e todos os seus apoiadores – de que ele ou ela perdeu. Para atingir o primeiro objetivo, o sistema eleitoral tem de ser claro e preciso. Para atingir o segundo, tem de se mostrar claro e preciso.

Precisamos ter essas conversas antes que algo ocorra, quando cada um de nós pode se manter calmo e racional ao tratar dos problemas. A integridade das nossas eleições está em jogo, o que significa que a nossa democracia está em jogo.


Fonte: Mídia Sem Máscara


Artigo originalmente publicado no New York Times.


Tradução: Ricardo Hashimoto

quinta-feira, novembro 24, 2016

E então, o que o governo tem feito de bom para você recentemente?







Por outro lado, como a sua vida foi aprimorada pelo mundo digital?
por Jeffrey Tucker(*)


Quão sustentável é o modelo político do século XX nesta atual era digital? Eu não apostaria nele.

Os seguidos fracassos e falhas dos governos estão se tornando tão óbvios, e seus custos, tão intensos, que tudo isso terá de forçar alguma mudança. Alguém terá de ceder.

Apenas pense nas mais recentes calamidades fiscais dos estados e em todos os seus programas que foram criados com ampla fanfarra, mas que hoje fracassaram retumbantemente. Todos eles começaram com altas ambições, tendo "especialistas" em seu comando, contando com volumosos recursos dos pagadores de impostos, nababescas propagandas, e todo o poder do estado por trás delas. E no que deram? Em tragédia.

No que diz respeito aos serviços fornecidos pelo estado, não há segurança, não há educação, não há saúde, não há infraestrutura e não haverá aposentadoria. Quem se deu bem foram apenas os burocratas anônimos do alto escalão, exatamente aqueles que criaram tudo dizendo que seria uma maravilha para todos. Todo o resto do povo foi enganado e esbulhado pelo estado. Pagou impostos, pagou a previdência, recebeu em troca apenas descaso, e hoje está desempregado e endividado. E não haverá dinheiro para a sua prometida aposentadoria.

A social-democracia prometida e propagandeada pelo estado acabou. Foi atropelada pela realidade econômica. Políticos e burocratas criaram o estado de bem-estar prometendo redistribuir riqueza, fornecer serviços "gratuitos" e melhorar a vida de todos; apenas se esqueceram de que, para redistribuir riqueza e utilizá-la para bancar serviços "gratuitos", a riqueza não apenas tem de já ter sido criada, como ainda tem de ser continuamente criada. Mais: tem de ser criada a uma taxa maior do que é redistribuída. Caso contrário, todo o sistema sucumbe.

E, para a riqueza ser criada nessa velocidade, é necessário haver capitalismo e livre mercado. E isso foi exatamente o que não houve.

O mesmo erro de sempre

O que deu errado? Aquilo que sempre dá errado quando as elites políticas se imaginam capazes de controlar a economia e o mundo apenas com inteligência, recursos e poder. Inevitavelmente, a arrogância intelectual acaba sendo confrontada por uma realidade que não pode ser controlada. E a realidade sempre se impõe e sai vencedora. Humilhada e derrotada, a classe política se limita apenas a apenas inventar as desculpas de sempre, prometendo novos paliativos toscos, até finalmente ser obrigada a jogar a toalha e reconhecer os fatos da vida.

Eis o grande erro do século XX: a crença de que o governo pode fazer de tudo, desde que haja "pessoas capazes" em sua administração, recursos suficientes, e poder. Essa arrogância derrubou regimes ao redor do mundo, desde Lênin há 100 anos até Obama e sua trágica socialização do sistema de saúde americano. Essa teoria de que o estado pode tudo levou à criação de monstruosas burocracias, justificou várias guerras, e impulsionou a criação de aparatos legais e regulatórios com alcances imperiais.

A fé no estado ainda sobrevive entre as pessoas, embora com cada vez menos convicção. Mas os fracassos sucessivos conseguiram gerar dúvidas até mesmo entre intelectuais pró-regime e políticos convencionais. Porém, como todo o aparato estatal — bem como as estratégias utilizadas para arrancar dinheiro das pessoas para financiá-lo — depende deste modelo, uma mudança de paradigma não virá facilmente.

Um novo modelo

Para os jovens de hoje, seu distanciamento deste modelo de governo é palpável. Difícil imaginar como deve ser para um adolescente de 20 anos assistir ao debate político. Pessoas criadas na era digital vivem em um mundo completamente distinto, um mundo de opções seguras e de alta qualidade criadas pelo gênio humano. Recursos e bens de capital que antes só estavam disponíveis para as elites hoje estão ao alcance de todos, graças às inovações tecnológicas e à genuína democratização criada pelo livre mercado.

Hoje, qualquer pessoa pode fazer filmes pelo YouTube, e ganhar dinheiro com isso. Qualquer pessoa pode publicar livros pela internet. Qualquer pessoa tem o mesmo acesso à informação que todas as outras. Qualquer pessoa pode fazer da sua casa um hotel e ganhar dinheiro com isso. Qualquer pessoa pode fazer do seu carro um meio de transporte de passageiros, e ganhar dinheiro com isso. Qualquer pessoa pode ser um empreendedor sem ter de pedir autorização ao estado. Qualquer pessoa pode até mesmo criar uma nova moeda.

O mundo que eles mais amam está nas mídias sociais e nos aplicativos de smartphone. Nenhum foi criado por decreto governamental. Não houve legislação. Não receberam financiamento estatal. Nenhuma burocracia os aprovou. São amplamente desregulamentados. Não há nenhuma instituição coerciva impingido ordens para que funcionem bem.

Trata-se, na prática, de um cenário em que impera a "anarquia da comunicação", e esta é gerenciada não por políticos poderosos mas sim por criptografias e por empreendedores que se sujeitam apenas aos veredictos dos consumidores. A ausência de um controle feito de cima para baixo é a energia que os impulsiona. E funciona bem para todos.

Decisões sobre onde passar as férias, onde comer, o que comprar, o que vestir, a qual entretenimento ir — em suma, todo o lado bom da vida — são tomadas de acordo com um fluxo ininterrupto de informações que chegam a seus smartphones, os quais eles utilizam também para avaliar todos os tipos de bens e serviços de acordo com sua qualidade e com o fato de terem ou não realmente melhorado sua qualidade de vida.

No mundo digital, ninguém está no topo da cadeia de comando impondo ordens. Nenhum indivíduo ou instituição exerce veredictos decisivos sobre vencedores e perdedores. Isso fica a cargo de todos os consumidores (usuários) que atuam na rede, que é um sistema disperso de coleta e processamento de informações. Tal sistema sabe que há muito mais sabedoria nos julgamentos cumulativos feitos por milhões de indivíduos do que nos caprichos de uma autoridade centralizada.

Para essa geração jovem, é assim que o mundo melhora: uma escolha de cada vez.

Dois modelos, mundos totalmente separados

A distância que separa este modelo de gerenciamento digital daquele observado no cenário político nacional não poderia ser mais abissal. Na política, há candidatos prometendo restaurar as glórias do passado. Outros prometem futuros brilhantes e progressistas. O que impera é uma visão essencialmente revanchista. Esquerda e direita brigam entre si para recuperar o território que cada uma acredita ter perdido. Quando o debate não é apenas patético e pastelão, ele é repleto de casos de corrupção e favorecimento indevido. Esses são os dois cenários reais da política: pastelão e corrupção.

Se a política fosse um aplicativo de smartphone, sua avaliação seria tão epicamente baixa (menos que uma estrela) que ninguém jamais faria seu download.

Como essas duas visões de mundo podem coexistir? Por enquanto, seguem coexistindo, mas os custos estão cada vez mais evidentes, e os benefícios, cada vez mais ilusórios. Apenas olhe para seu contra-cheque (ou para seu cupom fiscal que discrimina os impostos embutidos em cada item comprado no supermercado) e veja quanto custa esse sistema antiquado e patético. Jovens que estão começando sua vida adulta agora estão preocupados com emprego, aluguel, contas, planos de saúde e carro. No entanto, eles olham para seus salários e para seus cupons fiscais e vêem uma vasta quantia de dinheiro lhes sendo confiscada e direcionada ao estado. Não há opção, ao contrário de todas as outras áreas de vida.

Crucialmente, os supostos benefícios trazidos pelos gastos do governo e por toda a sua onipotência não são de maneira alguma óbvios. O prestígio que outrora o governo e seus programas usufruíam parece ter evaporado. Apenas pense nisso. Gerações anteriores viram grandes obras, aberturas de estradas, construções de hidrelétricas, exploração do espaço e épicas batalhas no cenário internacional. Há décadas que nenhuma dessas demonstrações de impressionismo governamental aparece para o público crédulo.

A ilusão do governo barato está acabando

Antes, as pessoas pareciam genuinamente acreditar que estavam obtendo grandes ganhos com os programas do governo a custos que pareciam relativamente baixos — no mínimo, tais custos eram disfarçados por meio de variados truques, como inflação, imposto de renda retido na fonte (mecanismo diabolicamente genial, que oferece restituições ao longo do ano e confere a impressão de se estar ganhando dinheiro do governo) e endividamento barato. Mas esses dias de delícia acabaram. Os custos passaram a ser cada vez mais intensamente sentidos no século XXI, ao passo que os ilusórios benefícios se comprovaram uma enganação.

Previdência, saúde, educação, segurança, infraestrutura: não apenas nada funciona, como ainda custam muito caro. Até mesmo coisas como controle de qualidade dos produtos e serviços já estão sendo feitos pelos aplicativos e pelas redes sociais. E com resultados extremamente superiores do que os sucessivos fracassos do governo.

Os maiores pavores das pessoas hoje sempre envolvem encontros com agentes do governo: DETRAN, Receita Federal, Alfândega e qualquer repartição pública.

Para piorar, eleições

O ápice desse espetáculo de degeneração política são as eleições. Votar em alguém se tornou um ato tão repulsivo, que passou a ser moralmente doloroso. Não há o certo; há apenas o menos repugnante. A escolha que você faz se baseia no temor de que o outro candidato será ainda pior. Você não vota desejando o mundo que aquele candidato prometeu criar; você apenas quer impedir que outro seja eleito. De certa forma, voltamos àquela condição pré-moderna, algo corriqueiro na era das privações e da luta pela sobrevivência. Isso simplesmente não mais tem lugar no século XXI.

Séculos atrás, David Hume explicou que todo governo — mesmo com seus vastos poderes — só consegue se manter enquanto a população acreditar que ele está fazendo mais bem do que mal. A existência de algum nível de consenso é crucial para a estabilidade do regime. Mas o que acontecerá quando a credibilidade moral e prática do governo se esfacelar ao ponto do desaparecimento? Aí você terá uma verdadeira mudança de paradigma.

Há várias características da política do século XX que não mais se aplicam no século XXI. Todas aquelas pessoas criadas na era digital estão cientes disso, mesmo sem saber vocalizar esse sentimento. Nenhum sistema de governo pode sobreviver por muito tempo a este crescente volume de anomalias que está arrebentando o paradigma político vigente. Algo terá de mudar.

Conclusão

O que o governo fez de bom para você recentemente? Se você não consegue responder a esta pergunta rapidamente, você já percebeu o problema central da vida atual. Resta agora descobrir a resposta para tipo de sociedade que queremos construir para o futuro.


Fonte: Mises.org

(*)Jeffrey Tucker